Eu amo a Sakura
E não tenho vergonha de admitir
Quem conhece o indivíduo centrado, pacífico e tranquilo que me tornei não seria capaz de imaginar quem eu era quando criança ao assistir Pokémon.
Tem gente que até hoje duvida que eu seja capaz de sentimentos complexos como raiva, frustração e ira, mas minha mãe certamente entraria com argumentos de grande valia para contrapor essa incerteza. Segundo ela, depois de sessões vespertinas ou matutinas do afamado programa de animação japonês, eu ficava, nas palavras dela, “um pouco agitado”.
*Heavy metal no volume 91*
Eu nunca soube exatamente o que se passava nesses momentos de “agitação”, porque para mim eles são um borrão indistinto, uma fantasia de cores e brilhos impossíveis de decifrar. Isso acontecia não só com Pokémon, mas também Digimon, Dragon Ball Z e Os Cavaleiros do Zodíaco. Este último talvez seja o maior deflagrador desses episódios de caos que a mim nunca foram narrados, já que no final de um deles me recordo de segurar em uma das mãos o boneco nu do Seiya e, na outra, o pé decepado dele.
Saudades do que não vivi: nas festas de aniversário, meus amigos comentavam as últimas revelações, mortes e desmembramentos de seus animes preferidos, os quais eu seguidamente era privado de assistir. Aparentemente eu me tornava violento e quem sofria nas minhas mãos era a minha santa irmã — que, lembremos, aparece em um registro audiovisual em VHS acertando meu rosto com um telefone no meu inocente primeiro ano de vida.
Minha irmã, por outro lado, não sofria o mesmo tipo de restrição. Ela encontrava-se livre, leve e solta para assistir aos seus Hamtaro, Sailor Moon e Sakura Card Captors na mesma televisão que não mais transmitia os violentos desenhos que tanto me agitavam.
Afligido pelo fantasma do machismo que apenas muitos anos mais tarde eu conseguiria reconhecer — embora jamais decifrar por completo —, eu me recusava a assistir aqueles desenhos de menina. Se não havia sangue, gritaria e mutilações variadas, qual o sentido de investir naquelas histórias? E pior, como eu admitiria a meus amigos que acompanhava tais animações voltadas para um público do qual eu não fazia parte? Já basta o infernal bullying que sofri na sexta série por nenhum motivo em especial.
No fundo, no fundo, entretanto, eu nutria um segredo.
Eu amava a Sakura.
Aquela menina que usava roupas deslumbrantes e ridículas para enfrentar poderes advindos de cartas mágicas, com sua franja com mechas laterais e o que aparentemente são marias-chiquinhas, balançava profundamente meu coração. Havia algo nela que me encantava, nas imagens de divulgação sempre angelical, com um sorriso no rosto e uma graciosidade que em nada lembrava a minha agitação movida a animes. Como poderia ser diferente, se as personagens da série viviam exaltando todas as inúmeras qualidades da Sakura, que é a) linda, b) inteligente, c) exímia esportista, d) virtuosa, e) bondosa, f) etc. etc. etc.?
Com mais de trinta anos na cara e uma barba que não decide se quer existir ou não, finalmente me permiti assistir, não mais sob a sombra do machismo de outrora, ao anime da minha paixão platônica. Foi na alvorada de um canal do YouTube que passou a transmitir gratuitamente a série que encontrei alento. Com minha esposa, cultivei uma nova tradição: todo domingo de manhã ver um novo episódio de Sakura Card Captors comendo cereal matinal voltado para o público infantil.
Entre colheradas de Fruit Loops, admiti para ela que a Sakura era meu crush na infância. Ela me confessou que também tivera um crush de anime. Minha irmã também tinha: era o personagem de um dos desenhos que eu assistia, e me surpreende que ela não tivesse se revoltado quando eu fui privado de ver as séries animadas e, ela, o seu profundo amor.
Em uma decisão repentina, eu e minha esposa decidimos viajar ao Japão para, como coloquei em palavras, “aproveitar que estaríamos em São Paulo” em fevereiro. Como se ir a São Paulo e ao Japão fossem coisas de igual medida.
Antes mesmo de definir destinos, reservar hotéis ou aprender expressões idiomáticas úteis como “onde fica o banheiro?”, digitei no Google “Sakura Card Captors tourism” — em inglês porque os resultados são sempre mais completos. De olhos extravasando, encontrei lojinhas que vendem produtos temáticos da série como colares com aquela espécie de chave/varinha mágica que a personagem usa no pescoço. Reservei uma hospedagem próxima à Torre de Tóquio, que tão proeminentemente aparece em vários episódios da série. É dela o mangá que espero encontrar no famoso bairro de livrarias e levar para casa nos braços como gostaria de levar minha grande paixão.
Mas de que adianta tudo isso se não poderei encontrá-la andando de patins pelas ruas da fictícia cidade de Tomoeda? Comprando bugigangas na loja de brinquedos? Passeando no fatídico Parque Pinguim? Se não poderei enfim encontrá-la, já adulta, e professar meus sentimentos, a despeito de estar fazendo essa viagem com minha esposa — que certamente estará declarando sua paixão para o próprio crush de anime em outro ponto da terra do sol nascente?
No final das contas, é possível que não fossem as lutinhas dos animes para meninos que me colocavam em um transe. Talvez fosse a Sakura que me deixava “um pouco agitado”. Mas isso quem poderia dizer seria apenas minha mãe.
E a mim ela nunca contou os detalhes.




Acho que a melhor parte de crescer é poder gostar do que a gente quiser sem sentir vergonha hahaha