As férias do freela
As delícias e dores de não trabalhar
Se tem uma coisa no regime freelancer que me empolga e apavora em mesma medida é tirar férias. Férias, sabe? Aquela coisa que muita gente tira no começo do ano, vai pra praia, pega virose no mar, passa três dias deitado morto na cama e depois retorna para a água de coco mais divina com o pé na areia e medo de pegar virose mais uma vez.
A última vez que tirei férias foi logo depois do meu casamento, mais de três anos trás. Na verdade, uma semana depois da cerimônia em si, porque era preciso preparar o terreno para a ocasião. Os trabalhos foram adiantados; os clientes, avisados; os calendários, marcados; as planilhas, preenchidas. Com muita dor no coração, pegamos a estrada imaginando se deixaríamos alguém na mão.
Desde então, levamos nossos computadores em todas as ocasiões em que poderíamos estar de férias. Apartamento na praia, perto do mar? Trabalho com vista. Evento literário em uma cidade charmosa? À noite é ligar o computador e tirar o atraso. Formaturas, casamentos, batizados, o computador a tiracolo.
Há uma parcela de culpa que nos acompanha ao largar tudo, deixar as benditas ferramentas de trabalho em casa e sair com malas preenchidas apenas de férias. Em meio às páginas impressas de confirmações de hospedagem que poderiam ser meros arquivos no celular, à câmera instantânea com garantia de ausência de IA, às mudas de roupa reserva na mochila, parece que caberia um computador. Um computador, um mouse, um mouse pad, fones de ouvido, talvez um suporte, um teclado para dar mais conforto e ergonomia, carregador, fios, adaptadores. Tem espaço! E já trabalhamos de qualquer lugar, a qualquer horário. Que diferença faria?
Minha esposa, que trabalha a aproximadamente três metros de mim, ensaiou cair na falácia de levarmos “pelo menos um computador”, disse ela, com um jeitinho de quem se desculpa. Neguei e fui categórico. Vamos tirar férias!
E se alguém precisar da gente enquanto estivermos fora? Serão três semanas inteiras, e já tenho arredondado para dizer que “passaremos fevereiro de férias”. Acalmei-a dizendo que não somos médicos e ninguém vai morrer se demorarmos mais alguns dias a responder. Trabalhamos no mercado editorial, que tradicionalmente é bastante seguro e cujas urgências raramente terminam em um cemitério (não vou dizer nunca, porque nunca se sabe).
Aquela vozinha dentro da cabeça de quem é freela sempre irá duvidar também da lealdade de seus clientes. Pode até ser que tenhamos uma boa relação, mas e se eles encontrarem alguém melhor, mais bonito, mais cheiroso para fazer seus materiais gráficos? Alguém que não tenha miopia para revisar seus textos, que seja capaz de cruzar a Tailândia de jipe ao mesmo tempo em que edita vídeos de redes sociais, rindo e de chinelos, os cabelos ao sabor do vento? Tensos, temos de acreditar que não somos esquecíveis assim tão fácil ou rápido e que, ao retornar, teremos e-mails para responder na caixa de entrada.
Claro que a questão financeira das férias de freelas não pode ser ignorada. A partir do momento em que paramos de trabalhar, o dinheiro para de entrar. Hesito ao pensar em um mês inteiro em que o dinheiro só vai sair. Não acho que alguém argumentaria que férias são um investimento.
Por outro lado, férias são um investimento, não? Um investimento na saúde mental! Tenho certeza de que tem gente que já passou muito mais do que três anos e pouco sem tirar férias. E mais, imagino que algumas pessoas nunca tenham tirado férias na vida, nem sabem o que é não estar trabalhando — seja por compulsão, seja por necessidade. Ainda assim, dar um tempo para a cabeça se recuperar do trabalho é sempre positivo, permitindo que retornemos com ânimos renovados e, no mínimo, algumas novas histórias para contar.
Nessas três semanas, entretanto, vamos sempre com um olho nas paisagens e outro na tela do celular, para garantir que não deixamos nada passar. É por isso que temos de nos proibir de levar o computador: se estivermos com ele, corremos o risco de ficar trabalhando enquanto o mundo nos espera lá fora.




Boas férias!
Aliás, preciso de uma revisão urgente… brincadeirinha!!!
Aproveitem!